quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Manifesto do Talhadão pelo Bispo de São José do Rio Preto, Dom Paulo Mendes Peixoto

Palavras ditas no Manifesto do Talhadão pelo Bispo de São José do Rio Preto, bom Paulo Mendes Peixoto
Excelentíssimas autoridades, senhores Deputados Federais, Estaduais, representantes de autoridades, Prefeitos Municipais, Vereadores, representantes de outras entidades, prezados irmãos pastores, meus senhores e minhas senhoras.

Gênesis 1, 26: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra".

Estamos todos aqui por uma única causa, para dizer não à construção destas duas PCHs, que trarão, sem dúvida, mais um impacto para a natureza de nosso noroeste paulista, acabando com uma das últimas reservas naturais que a região ainda tem.

Queremos manifestar que não somos contra o progresso, e sim contra o falso progresso. Muito pelo contrário, mas ele tem que ser com sustentabilidade, não destruindo aquilo que faz parte do patrimônio natural da humanidade. A cachoeira do Talhadão é um deles.

A Construtora Encalso tem nos procurado para dizer que tudo será feito dentro das normas da Lei. Podemos até não duvidar disto, mas não podemos concordar em dizer que a natureza não vai ser afetada. Nunca vamos substituir uma árvore centenária plantando várias outras.

Representando a Igreja Católica, venho defender o que temos destacado no tema da Campanha da Fraternidade deste ano: “Fraternidade e Vida no Planeta”; lema: “A criação geme como em dores de parto” (Rm 8,22). Destruir a natureza é ir contra o que temos falado para defender o patrimônio da vida.

Quando a bíblia fala de “dominar a terra”, está dizendo do progresso, mas de construir aquilo que ajuda para que todos tenham vida saudável e com dignidade. A nossa região tem sofrido as consequências de progresso sem sustentabilidade, destruindo.

Tirar as árvores centenárias, as florestas, acabar com a fauna, com as reservas, não defender as nascentes, entupir as cachoeiras, acabar com reservas arqueológicas, tudo isto para favorecer o agro-negócio, eliminando a economia familiar, é destruição.

Na verdade, não são medidas as consequências. E o futuro da natureza, as consequências para as futuras gerações? É direito de todos os cidadãos defenderem aquilo que é de direito. A natureza é para todos e não monopólio econômico de um grupo. Energia se consegue de muitas outras formas.

Sabemos que o poder muitas vezes é arbitrário, que passa por cima do povo e das iniciativas populares, mas não podemos ficar omissos, sem dar a nossa contribuição para defender o bem comum. As explicações dadas não são convincentes ou ainda não suficientemente esclarecedoras.

O Talhadão talvez seja uma das únicas possibilidades na região para acontecer a piracema. É através deste fato natural que as nossas águas são povoadas de peixes, não só o Rio Grande, o Turvo, o Preto, mas todos os seus afluentes.

Já quase não encontramos peixes nos nossos rios. Com isto, a realidade será muito pior. Quem vive do pescado, vai ter ainda muito mais dificuldade de sustentação, com a diminuição de peixes, além da transformação deste local de turismo.

Somos solidários com todos aqueles que se sentem agredidos com a destruição da natureza, que é obra de Deus, pela insensibilidade e privilégio de grupos econômicos, favorecendo o empreendimento de particulares em detrimento do bem maior da coletividade.

O que está em jogo não é só a qualidade de vida das pessoas, mas também a própria vida que precisa ter sustentabilidade no futuro. Não podemos nos conformar com um desenvolvimento imediatista, que não mede as consequências e desrespeita a vida.

A partir da metodologia da Campanha da Fraternidade; que privilegia o VER, o JULGAR e o AGIR, a Diocese participa desse ato VENDO a aflição dos moradores dessa Região e JULGANDO que a construção das PCHs destruirá os recursos naturais existentes (gerando poucos benefícios regionais).

Como gesto concreto, a Diocese de São José do Rio Preto propõe a criação de uma frente parlamentar suprapartidária que lance junto ao Governo do Estado de São Paulo um estudo de viabilidade ecoturística dessa região; criando aqui um pólo turístico gerador de emprego, lazer e renda.

Eu agradeço a oportunidade, parabéns aos organizadores deste evento e convoco a todos os presentes para continuar a luta para defender a natureza do nosso Estado tão fragilizada pelo seu desgaste de forma tão drástica e irresponsável.

Que o Deus da vida nos abençoe e nos dê coragem para defender aquilo que é bem de todos. Que a natureza não seja desrespeitada por questões que podem ser resolvidas de outras formas para dar sustentabilidade ao progresso.



dom Paulo Mendes Peixoto

Bispo de São José do Rio Preto.
Fonte: site "SALVE O TURVO"

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